Lar, doce estúdio - Dia #4

tiago pereira

Postado por tiago pereira em 03 de novembro de 2017

O objetivo dessa breve sequência de textos está longe de ser o de ensinar algo ou dar dicas sobre qualquer coisa. São relatos, apenas.

 

Mesmo assim, se fosse pra dar apenas um conselho a alguém prestes a gravar seria: não vá para o estúdio sem ter em mente como se toca cada compasso de seu repertório. Principalmente se a banda estiver pagando por hora. O ideal é ter mais de uma opção de arranjo, inclusive, para escolher o melhor na hora. De qualquer forma, nunca dê o rec sem saber como vai terminar uma música.

 

Nosso baixista, o grande Ned, que o diga.

23224851_1598035186958061_1803373449_o

“Animais Domésticos” é a faixa mais agressiva do disco. Carrega muita informação em cada compasso e exige precisão e clareza sobre as divisões rítmicas de cada rife, além de ter uma mudança de andamento no meio que não poderia ser executada no metrônomo.

 

Deixamos esse som por último já prevendo que daria trabalho. Após definir como seria a cola da parte sem metrônomo para o resto da música, gravamos a bateria em três (trabalhosos) takes. Aí veio o baixo.

 

Ned estava indo muito bem – ele é sempre muito preciso quando sabe o que tem que fazer – até chegarmos na última parte, cuja acentuação do rife fica meio difícil de definir devido à velocidade. E nesse trecho de uns oito compassos perdemos proporcionalmente mais tempo do que em todo o resto das gravações.

23223234_1598036206957959_911142795_o

A certa altura estávamos eu, Bil, Rafael, Caio (assistente de produção) e o André Pindé (baterista da Supercombo, que também trabalha no estúdio) em cima do Ned tentando fazer entrar na cabeça dele a acentuação do rife.

 

É preciso enfatizar aqui que o Ned é uma das pessoas mais engraçadas e fáceis de lidar desse mundo. Por isso, o clima não perdeu a leveza mesmo depois das dezenas de malsucedidas tentativas de gravar os últimos cinco segundos da música.

 

Pelo mesmo motivo, quando Ned confessou depois que nunca havia aprendido direito aquela parte da música, embora tenhamos ensaiado ela muitas e muitas vezes, só pudemos cair na gargalhada.

 

O fato é que o imprevisto em nada comprometeu o todo da empreitada – talvez até tenha acrescentado uma dose de graça a ela – e o derradeiro dia de gravações terminou com um clima de satisfação no ar. Cansaço e satisfação.

 

Gravamos todo o essencial que previmos ser possível nas 35 horas a que tínhamos direito. Oito faixas com bateria, baixo e guitarras. Sete vozes principais (a única que faltou foi “Gula”, a mais difícil de ser cantada). Rafael espera gravar a voz faltante e detalhes de guitarra em mais umas cinco horas, assim que puder voltar a SP – dessa vez sozinho.

 

Depois de desligados todos os botões, um merecido brinde entre banda e produtor. Nada que pudesse varar a madrugada, embora as histórias do Bil sobre outros discos que gravou fossem muito convidativas.

23261909_1598036326957947_1318249900_o

O dia seguinte será de estrada. Sete horas até Joinville já com tudo que gravamos salvo num HD externo para ser maturado em casa antes da finalização.

 

Aliás, maturação é um processo essencial e que exige essas viagens, esse contato com opiniões e visões de outros profissionais. A breve estadia em Sampa renderá ao Somaa muito mais que um disco. O processo de imersão total, de desligamento das nossas rotinas normais, mesmo que breve, só confirma a dimensão que a música e a criatividade têm em nossas vidas.

Comente via Facebook

COMENTEVIA FACEBOOK